Brasil bate recordes de casos. Posso estar com depressão sem saber?

Pesquisa recente da UERJ apontou que os índices de depressão dobraram no Brasil depois da pandemia. E antes disso o Brasil já era considerado o 2º país com mais casos do mundo e o 1º da América Latina. Mas o que é depressão?

É uma doença, caracterizada por mudanças de comportamento, de pensamento e de humor. Segundo a OMS, é a maior causa de incapacitação no mundo. Nem todas as pessoas que estão com depressão “choram à toa”. Não é uma fraqueza, falta de fé ou “falta do que fazer”, como se diz no popular. E, da mesma forma que “oração e muito trabalho” não são capazes de curar uma cárie, por si só, sem que se vá ao dentista, a depressão também precisa de tratamento para ser superada.

Seu surgimento pode não ter motivo aparente. Noutras vezes pode estar relacionada com fatos tristes ou perdas, mas nesses casos se difere da tristeza e do luto normais. A pessoa com depressão tem dificuldade em assimilar perdas e superá-las. Segundo o famoso pesquisador, Aaron Beck, esse transtorno se caracteriza por pensamentos negativos, invasivos e persistentes a respeito de si próprio, do futuro e do mundo. No nível físico os sintomas variam, desde falta ou excesso de sono, falta de energia e ânimo, ansiedade, irritabilidade, falta de concentração, mudanças no apetite ou libido. Ideias como culpa, autodepreciação e suicidas podem estar presentes. Dois sintomas são mais importantes: o primeiro é o “humor deprimido”, que não se apresenta somente como tristeza, mas também pela sensação de vazio ou falta de esperança. Outro é a perda de interesse em coisas que, antes, a pessoa considerava prazerosas. Um conjunto desses sintomas têm que persistir por pelo menos 2 semanas para se configurar depressão.

Esse transtorno pode ter causas diversas: genéticas, familiares, ambientais, hormonais, neurológicas, induzida por substâncias ou doenças, entre outras. A pessoa com depressão não tem culpa nem controle sobre os sintomas. Ela precisa de acolhimento, por parte da família, e de tratamento psicológico, psiquiátrico (medicamentoso) ou ambos combinados, dependendo da gravidade. É um mal que pode acometer crianças a idosos, e pode levar a perdas profissionais, divórcios e até ao suicídio.

Hoje em dia, com a “obrigação-de-ser-feliz” estampada nas redes sociais, muitas pessoas disfarçam os sintomas da depressão e não procuram ajuda, por destoarem do que acham normal. Outro problema é a falta de atenção aos sentimentos, e a dificuldade de encontrar um lugar para desabafá-los. Tudo isso só piora um problema que já é grave, e a que todos devemos estar atentos.

Por MARCELO CUNHA, psicólogo (CRP04/48283), terapeuta familiar, especialista em Psicologia Analítica e membro do Núcleo de Estudos do Sonho da SBPA/SP. Tel.: (35) 99822-7500 | 99100-7060 [email protected]