A desilusão amorosa de Narciso: uma paixão assim pode te colocar pra baixo.

Era uma vez um rapaz chamado Narciso – mas podia ser Pedro, Enzo, Cauê. O que se sabe é que era jovem e de beleza irresistível. Assim ele atraiu uma linda moça, chamada Eco – mas bem que podia ser Valentina, Sofia, Isabelly. Ela tinha problemas para se comunicar. Não tinha voz própria. Sempre repetia tudo o que os outros falavam. E assim não conseguia declarar seu amor por Narciso. Apenas o seguia. O resto do mito grego todos já ouviram. Narciso rejeita o amor de todos, e por isso é punido pelos deuses. Sua sina é se apaixonar pela própria imagem, que admira nas águas do Rio Styx, e onde acabou por se afogar. Deste mito veio o termo “narcisismo”, comumente associado ao excesso de amor próprio.

Atualmente, no lugar do rio de Narciso temos as telas: celular, tablet, computadores. Inclusive, a palavra “streaming” vem de “riacho”. Nas redes sociais ficamos horas admirando as próprias imagens, e as de todo mundo. E isso não é uma metáfora: em uma pesquisa divulgada na Revista Forbes este ano, o Brasil ficou em 1° lugar com o maior tempo gasto pelas pessoas em apps. Em outra pesquisa, da Comscore (2020), o Brasil é o país com maior alcance das redes sociais, e o 2° em tempo de utilização. Outra pesquisa da Hoopsuit (2019), dos 365 dias do ano, o brasileiro gastou 145 dias conectado, se somadas as mais de 9 horas de internet diárias. Nas mesmas pesquisas, os países desenvolvidos apresentam números bem mais baixos.

Fomos pegos pelas redes como peixes. Como trouxe no artigo do mês passado, são numerosas as pesquisas que estão denunciando o prejuízo no aprendizado por causa do uso intenso de telas por crianças e jovens. Mas o perigo não está só aí. Outras pesquisas apontam que a produtividade no trabalho, que vinha numa crescente durante todo o século XX, começou a decair no mesmo ano do advento dos smartphones, em 2007. Presos como Narciso.

E sofremos também como Eco. Sempre seguindo “perfis” que não são os nossos, “status” inalcançáveis, “stories” de outros enquanto a história da própria vida fica de lado. E ficamos ecoando, repostando, reencaminhando… Vários analistas apontam que a programação das redes sociais prendem as pessoas em bolhas, onde só ouvem, repetidas vezes, o eco das suas próprias ideias – assim funciona o “feed’’.

Com o surgimento das janelas, “windows”, achamos que abríamos um mundo novo. Os números atuais mostram que não. Atrás das janelas havia um riacho, límpido como um espelho. E o mundo em geral, e o Brasil em primeiro, está, na verdade, se afogando, enquanto vê suas próprias imagens refletidas nele.

Por MARCELO CUNHA, psicólogo (CRP04/48283), terapeuta familiar, especialista em Psicologia Analítica e membro do Núcleo de Estudos do Sonho da SBPA/SP. Tel.: (35) 99822-7500 | 99100-7060 [email protected]