Eles querem se separar! O que a família e os amigos podem fazer nessa hora?

Eles combinam tanto”; “que bom que vão se casar”; “parabéns aos noivos”; “dois pombinhos”… As fotos ficam lindas, assim como o filme do casamento. Nessa hora ninguém imagina que aquele casal, tão feliz, um dia venha a dizer, um para o outro, que se odeiam e querem o divórcio. Porém isso tem se tornado cada vez mais comum. E houve uma explosão na pandemia. Os números mais recentes do Colégio Notorial do Brasil (CNB/CF), apontam para um aumento dos divórcios em 2020 em 54%. Mas o que as pessoas mais próximas podem fazer pelo casal em crise?

Já foi o tempo em que a máxima “em briga de marido e mulher…” servia para alguma coisa. Assim como as pessoas, as famílias também adoecem e precisam de ajuda. O avanço dos estudos sobre as famílias como sistemas têm posto luz sobre várias questões, antes inexplicáveis. Segredos, tradições, alianças, atribuição de papéis, mitos, crenças e tantos outros comportamentos e atitudes são herdados, em uma família, de geração em geração. Normalmente, isso acontece sem que ninguém tome consciência.

São os chamados fenômenos transgeracionais. Por algum tempo eles podem até funcionar bem, mas uma mudança na família pode tirar todo o equilíbrio do sistema e gerar muita dor. Por exemplo: perda de emprego, saída de um filho, morte de um ente querido, chegada de um idoso, nascimento de mais um filho. Ou uma pandemia.

A tendência dos cônjuges diante de mudanças assim é culpar um ao outro pela dor que sentem, mas não conseguem explicar. Porém, os estudos da Terapia Familiar Sistêmica, já há muitos anos, têm demonstrado, com farta comprovação, que a solução nunca é individual. Não é culpando ou eliminando alguém da casa – igual no BBB – que a situação se resolve. Antes, demanda a conscientização de todo o sistema. A dor é inevitável, mas sofrer é opcional. As famílias que relatam passar pela experiência da Terapia Familiar demonstram maior resiliência e capacidade de se adaptar às mudanças, que são inerentes à vida.

Essa situação me lembra a historinha do leão com o espinho na pata. Ele batia em todos na floresta porque estava com dor, mas não sabia o porquê. Vários animais tentaram acalmar o leão, em vão. Na mesma história havia um valente ratinho que decidiu se aproximar para ver o que estava acontecendo. Ao entender o motivo do destempero do rei da selva, bastou tirar-lhe o espinho para que a floresta voltasse ao normal. É com essa prudência e valentia que as pessoas que amam aquele casal são chamadas a ajudá-los. A lembrá-los de que a dor pode ser tratada. E que o divórcio não é o único caminho.

Por MARCELO CUNHA, psicólogo (CRP04/48283), terapeuta familiar, especialista em Psicologia Analítica e membro do Núcleo de Estudos do Sonho da SBPA/SP. Tel.: (35) 99822-7500 | 99100-7060 [email protected]