A Psicologia por trás do TikTok: o que faz ser tão viciante?

Mais de 800 milhões de usuários ativos – tamanho que alcançou em menos tempo do que Facebook e Instagram. Seu público gasta, em média, 50 minutos do dia no aplicativo. Mais usuários do que o Tweeter e o Linkedin. Uma das plataformas com maior impacto sobre o público jovem mundial… O que fez o TikTok explodir assim? Pesquisadores acreditam que seu segredo está na psicologia que carrega.

Segundo a Dra. Julie Albright, professora da Universidade do Sul da Califórnia (EUA), o gesto repetitivo de deslizar para cima, no app, tem efeito semelhante ao gesto usado nas máquinas de caça-níquel dos cassinos. Ele iniciaria um mecanismo viciante, que em psicologia comportamental é chamado “reforço aleatório”. Você nunca sabe qual será o resultado. Ora, o próximo vídeo é muito prazeroso, noutras vezes, nem tanto. Aí “você tenta de novo”, indefinidamente. Pulando de um vídeo para outro – que duram em média 16 segundos – quando o usuário nota, sua tarde já se foi.

Mas isso tem implicações ainda mais sérias. Ao usar a palavra “viciante”, a pesquisadora não está usando uma metáfora. Os circuitos neurais de recompensa acionados pelo aplicativo são os mesmos do vício em cassino, em drogas e nas compulsões alimentares. A suspeita dos pesquisadores é de que toda a engenharia do app contribua para criar esse vício: a tela imersiva, o “loop” automático, etc.

Um truque importante nesse sentido é o algoritmo do TikTok: o programa analisa a reação do usuário a cada vídeo (quanto tempo ficou nele, se compartilhou, se o pulou…). Somando isso a dados que coleta do celular (algumas vezes, sem pedir permissão, como o IP), o TikTok consegue “adivinhar” o que seus usuários gostariam de ver em seguida, aumentando ainda mais a sensação de prazer. Outras redes sociais também usam isso. No entanto, parece que o TikTok superou as demais nessa tecnologia de “gerar vício”, ao somar três fatores: um menor nível crítico – a pessoa não está ali pesquisando um tema, como em outras redes, mas busca apenas entretenimento; ao efeito surpresa de cada novo vídeo; e a maior velocidade de “recompensa” (com vídeos mais curtos).

E qual seria o problema nesse vício? Além das 304 horas perdidas por ano, isolado com seu celular, sem realizar nada? Pesquisadores têm percebido nos usuários do TikTok uma menor tolerância à frustração – característica comum dos usuários de droga, e um grande obstáculo a qualquer conquista na vida mais significativa. Esses são ainda dados preliminares, mas muito alarmantes. Algo precisa ser feito, como diz a Professora Albright, para proteger nossos jovens e nossas famílias desse tipo de armadilha.

Por MARCELO CUNHA, psicólogo (CRP04/48283), terapeuta familiar, especialista em Psicologia Analítica e membro do Núcleo de Estudos do Sonho da SBPA/SP. Tel.: (35) 99822-7500 | 99100-7060 [email protected]