Em agosto de 2010, 33 trabalhadores ficaram presos na mina San José, no Chile. Após dois meses e uma semana acabava aquela história tão distante. Pois bem: quem imaginaria que 10 anos depois, e com toda a tecnologia atual, acabaríamos todos confinados, como aqueles mineradores?
O distanciamento social é capaz de criar em nós reações imprevisíveis. Observamos isso no BBB. Quando os parentes dos “brothers” têm chance de falar livremente, normalmente expressam a surpresa com as reações deles na casa. Em estações espaciais, bases polares, submarinos e prisões observou-se a tendência a perda de identidade e embotamento emocional. Uma pesquisa com prisioneiros de solitárias relatou o aumento da ansiedade, instabilidade de humor e descontrole dos impulsos. Também ocorreram mais frequentemente ataques de pânico, episódios relacionados com depressão e perda de memória. Embora em uma situação menos dramática do que as relatadas aqui, pesquisadores alertam para as consequências do confinamento tão prolongado devido à pandemia, pois é possível haver sequelas.
A perda de liberdade pode ocasionar manifestações súbitas de raiva, desamparo ou tédio, prejudicando sobremaneira a convivência. Pesquisa americana recente da Kaiser Family Foundation diz que 50% dos americanos teve sua saúde mental abalada com a pandemia – resultado parecido apenas com os dados após o 11 de setembro.
Embora não estejamos sem luz ou comida – como em uma mina – o medo do desconhecido e da morte, e tantas perdas reais e simbólicas, não deixam a situação do mundo atual muito atrás. Vários serviços de atendimento à população já relataram o aumento de casos de ideação suicida, conflito familiar e violência doméstica. O estresse aumentado pelo confinamento pode fazer aflorar problemas psicológicos latentes, e abala de forma ainda mais séria pessoas com distúrbios psicológicos já manifestos.
Se você ou alguém do seu convívio tem apresentado um comportamento anormal, mais ansioso, irritadiço ou deprimido, é importante procurar ajuda especializada o mais rápido possível. Vários psicólogos, autorizados pelo CFP, tem atuado na pandemia através do atendimento online com sucesso. Além disso, focar no tempo presente e em tarefas objetivas ajuda a pessoa a se manter em seu eixo. Importante, agora mais do que nunca, manter uma disciplina de horários e atividades. Fazer exercícios fisicos, ligar regularmente para amigos e familiares, dormir e acordar cedo, alimentar-se em horários fixos, tudo isso aumenta a sensação de segurança e estabilidade. Outra dica é separar bem o trabalho da vida em família: ideal que aconteçam em cômodos distintos, com horários bem definidos e até com roupas diferentes. Poucas atitudes podem fazer muita diferença, ajudando seu cérebro a manejar essa crise.

Por MARCELO CUNHA, psicólogo e terapeuta familiar. Atende em Itajubá e Pouso Alegre. Tel.: (35) 99100 7060 [email protected]